Às vezes dou comigo a pensar onde é que vou buscar tanta energia e lucidez para andar para a frente.
Não é fácil.
Sou uma pessoa crente e sempre que me vou abaixo apelo a Deus para que me ajude. Até agora Ele nunca me abandonou.
Há alguns anos conheci um senhor, que me deu uma grande lição de vida.
Este senhor que veio mais tarde a ser meu cunhado ficou paralisado aos 20 e poucos anos. Era engenheiro e trabalhava na barragem de Castelo de Bode. Deslocava-se de moto seu meio de transporte favorito quando teve um acidente que o deixou paralisado da cintura para baixo. Calculo como tenha sido difícil saber que nunca mais voltaria a fazer o que ele mais gostava, andar!
Das longas conversas que tivemos ele demonstrou sempre um certo optimismo no meio do seu infortúnio.
Em vez de se entregar ao desespero, fez das fraquezas forças. Dos I.C., ele tinha o apoio no que respeita à higiene, alimentação etc…o pai era a sua companhia, mas isto não bastava. Fez-se rádio amador para poder estar em contacto com o Mundo exterior. Dentro do quarto, ele rodeou-se de vida, tinha um aquário várias gaiolas com passarinhos, e plantas. Ao longo das paredes havia estantes com muitos livros, várias cassetes e C.D. com músicas, Com uma cana de pesca ele conseguia tirar das prateleiras tudo o que precisava. Com uma engenhoca construída por ele, quando já não podia andar conseguia abrir a porta da rua, aquecer o almoço no micro-ondas quando por momentos ficava sozinho. E das pessoas que ao I.C. enviava um dia coube a vez da minha irmã que também era funcionária daquela Instituição ir dar-lhe apoio. Se ele precisava de companhia a minha irmã na altura numa situação difícil apoiou-se a ele de tal maneira que acabaram casando. Nós fomos os padrinhos de casamento com muita honra. Ele deu à minha irmã um tecto, muito carinho e ela, uma devoção até ao fim dos seus dias.
Quando lhe telefonava para saber como estava ele, perguntava-me por vezes o que se passa contigo minha querida? Não estás bem? Não era preciso eu dizer nada ele conhecia na minha voz quando eu não estava bem! Ficávamos longas horas a falar…. Chorava desesperada por vezes, mas, quando terminava-mos as nossas conversas sentia um alívio e desligava o telefone com uma esperança e animo para lidar com os problemas do dia-a-dia. E espantoso era ele, que me ajudava nas horas mais difíceis. Os problemas de saúde do M. internamentos, os problemas por vezes menos bons no emprego, as preocupações com os filhos e o nascimento atribulado com os problemas de saúde do G. Em todos os momentos este grande homem esteve presente dando-me força. Ao fim de 40 anos de invalidez, ele morreu deixando um grande vazio. Apesar de já não estar mais aqui, quando penso nele, sinto a sua força. É nele que eu penso sempre que estou triste!
Acredito que onde quer que esteja ele pede a Deus por mim!
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